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“Ação guerreira” contra Belo Monte
10/11/2009 |
Índios interrompem travessia de balsa no Xingu e enviam carta a Lula protestando contra a obra
Com a presença do cacique Raoni Metuktire, conhecido em todo o mundo, lideranças indígenas anteciparam o protesto previsto para hoje contra a construção da Hidrelétrica de Belo Monte e interromperam ontem, por cinco horas, a travessia por balsa do Rio Xingu, que liga São José do Xingu a outros municípios de Mato Grosso e ao Pará. Cerca de 50 caminhões de boiadeiros foram impedidos de passar.
A suspensão será retomada hoje, às 7 horas, e deve ser mantida pelo menos até o encerramento do encontro, também hoje, em Brasília, para discutir "direitos indígenas". Raoni, que viajou ontem para Redenção (PA), participou das manifestações acompanhado do líder Megaron Txucarramãe. Raoni se mostrou preocupado com a obra. "É bom o rio quieto em seu leito e sem barragens."
Os protestos fazem parte do calendário dos povos do Xingu que recomeçaram no segundo semestre com a manifestação na Aldeia Piaraçu, na terra indígena Kapot/Jarina, na semana passada, contra a construção da usina.
Em carta que será entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assinada por cerca de 300 lideranças, os índios ameaçam com "ação guerreira" caso o governo não desista do projeto da hidrelétrica.
Na quinta-feira, está prevista um encontro na Vila Roçada, município de Senador José Porfírio (PA), que reunirá lideranças indígenas, moradores ribeirinhos, procuradores da República, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e advogados.
Mesmo sem ter obtido nenhuma das três licenças necessárias (a prévia, de instalação e de operação), o empreendimento deve ser oferecido em leilão em dezembro, segundo informação do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.
No documento que será entregue ao presidente Lula, eles questionam a forma como o processo de licenciamento vem sendo conduzido pelo governo e reclamam da falta de diálogo com os povos indígenas que, segundo eles, "não teriam sido ouvidos nem recebido as informações a que têm direito".
Na carta, dizem também que não aceitam que "o governo tome uma decisão de tamanha irresponsabilidade, que trará consequências irreversíveis para essa região e nossos povos, desrespeitando profundamente os habitantes ancestrais deste rio e o modelo de desenvolvimento que defendemos".
Há cerca de duas semanas, a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão do governo, emitiu parecer favorável no que concerne à avaliação do componente indígena dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) da obra.
A comitiva indígena exige uma reunião com o presidente do órgão, Mercio Meira, para "cobrar explicações sobre esse parecer, que contraria a opinião das 283 lideranças indígenas presentes no encontro".
Os questionamento à obra incluem aspectos técnicos, socioambientais e de viabilidade econômica. Segundo o projeto, dadas as condições de cheia e vazante, o aproveitamento em parte do ano não ultrapassaria os 40% dos 11.233 MW instalados.
(Por: Renato Andrade e Leonardo Goy, BRASÍLIA)
Veja carta na íntegra
Ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil – Luiz Inácio Lula da Silva
Nós, lideranças indígenas da etnia Kayapó – Mebenokre – MT e aldeias do Sul do Pará, vem mui respeitosamente dirigir-nos até a presença de Vossa Excelência para expor nossas reocupações quanto à usina Hidrelétrica de Belo Monte sobre o rio Xingu, pois muito pouco tem feito os governos por convidar as populações indígenas e suas populações, bem como a extensiva população ribeirinhas e cidades existentes naquelas regiões.Os povos indígenas, neste caso, os povos Kayapó tem sido guardião em defesa do meio ambiente, da biodiversidade e dos ecossistemas, entretanto temos a mão limpa e cuidadosa de zelar pelas riquezas naturais. É fato que inicialmente temos que divulgar tudo aquilo que é bom ao desenvolvimento sustentável de todos os povos, mas ainda estamos muito preocupados e gostaríamos que Vossa excelência, como sempre olha em prol dos povos indígenas, coloque em audiência pública para os povos indígenas melhor endenderem essa situação. As matas, os cursos de rio que tanto conhecemos e temos respeito culturalmente, além de proporcionar a nós farta alimentação, estamos ternerários que seremos então mais prejudicados, no jornal o Globo – G1 edição de 29.09.09 páginas 1 e 2 o Sr. Ministro Edison Lobão fez alisão comentada que ele próprio vê forças demoníacas que puxam ou tentam jogar o país para baixo, de certo entendimento envolvendo tactamente que as populações indígenas entravam ou dificultam o processo de construção da referida Usina. Gostaríamos de que o Sr. ministro Lobão pudesse nos entender melhor, até porque desde os primeiros ensaios sobre a Usina na década de 80, os indígenas nunca tiveram opinião antagônica com a questão mas que forçam o desejo de que o empreendimento não venha destruir os ecossistemas e biodiversidade que milenarmente cuidamos e ainda podemos preservar. Sr. presidente, nosso grito fica registrado para que os estudos sejam bem executados e procurem discutir com os povos indígenas deste grande berço ecológico dos nossos antepassados. Quando vimos escrito o que o ministro Lobão escreveu, ficamos indignados e horrorizados com a manifestação, possivelmente enxergando os indígenas como espíritos do mal em protestar muitas vezes a construção da Usina. Vamos sim ficar mais atentos ainda e solicitamos que Vossa Excelência não esqueça de recomentar ao Sr. Ministro que nós indígenas estamos presentes, vivendo as políticas de governo e que queremos participado do processo sem que ao menos sejamos taxados de ruins demoníacos que emperram a evolução do país.
Assim registramos nosso apelo e confiante no conceituado a respeito do governo de V. Excelência, nos colocamos muito favorável para que o processo venha ser realizado sempre juízo para os povos indígenas desta região.
Colider – MT – 15 de outubro de 2009.
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